Sinto Que a infância das aves É mais um pesadelo Para mim.
Ó Deus... Se é que existem Aves de verdade, Porque não pousam elas Em meus ombros, Quando em meus olhos Há àgua para beber?... ( Ruy de Portocarrero - hora interrompida )
Todos os dias Se abre um sorriso, Como se alguém me encontrasse. Todas as noites Se fecham os olhos, Como se eu próprio sonhasse.
Todos os dias Se abre uma rosa, Como se alguém ma pedisse. Todas as noites se fecham as portas, Como se eu próprio mentisse.
Todos os dias Se abre uma campa, Como se alguém me chamasse. Todas as noites Se fecham as luzes, Como se eu próprio rezasse.
Todos os dias Se abre uma carta, Como se alguém me escrevesse. Todas as noites Se fecham janelas, Como se eu próprio morresse. ( Ruy de Portocarrero - Promessas e Loucuras )
. Sorrisos abstractos Murmuram preces surdas... E os sinos Continuam a tocar Dentro de mim.
Sei que morri... Enquanto que meu corpo Segue indiferente O destino da cidade
Sei que morri... E sei que sou alguém Vivendo para os outros, Alguém que já não vive Morrendo para si próprio. ( Ruy de Portocarrero - hora interrompida )
. A isto Chamam dedos Mãos Olhos Rosto... Formas que existem Para nos dar uma forma.
E dizemos que existimos... Nós não existimos No momento Em que existimos.
Mas se existimos Pelo facto de não existirmos, Não só Deus Terá o privilégio de não existir Enquanto existe. . ( Ruy de Portocarrero - hora interrompida )
O que me convence Neste compasso de espera, Não é o agonizante silêncio De qualquer estátua... Nem o indiferente sorriso Duma rua sem nome... O que me convence É a certeza De que a tua juventude Não foge, não me entristece... Apenas sei que envelhece. ( Ruy de Portocarrero - hora interrompida )
Eram traços expressivos Em esboço de bailado... Eram gestos inocentes Eram versos coloridos Sem medida...
Onde a palavra segredo Era apenas o momento De ser lida. Sim... Tudo aquilo Que eu próprio desejava, Estava ali em festival Desde a brisa da manhã... Apenas eu não estava lá. ( Ruy de Portocarrero - hora interrompida )